Aos 25

Cheguei aos 25.

Um silêncio.

Sou capaz de escutar um “e daí?” vindo lá do final do corredor.

É diferente. Talvez por ser mais emblemático. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Nem trintona, nem cinquentona. E, nem ao mesmo, a certeza do caminho já trilhado.

Amo tudo isso. Sim, amo meus castelos de areia, mas, aos poucos, me saboto e empurro minha cadeira para o precipício. Mais um pouco de café e chutarei o balde e viro, sei lá o que vou virar… Bicho, monstro, homem, anomalia, desejo, um capricho monocromático de Goya, ou A Liberdade Guiando o Povo.

Quero dormir, deitar e acordar depois da tempestade, porém, todas as manhãs, com uma voz cada vez mais alta e desesperada, o mundo me chama, me chuta pra rua, me manda viver, e me empurra sonolenta pelos labirintos da vida. Quer eu queira, quer não. Simplesmente vou. Às vezes, com um sorriso falso, em outras…

Se os 25 anos fossem um sinal gráfico, talvez fossem as reticências, os três pontinhos, o medo de continuar ou de não saber ao certo onde se quer chegar. O mistério do futuro.

Ao mesmo que tudo é incerto, tudo vira certeza. Tudo aquilo que não se quer ficar mais claro, límpido. Um céu com sol, mas chove e eu aguardo a hora certa de sair de casa. Ou talvez saia assim mesmo, correndo, meio sem jeito e com medo de escorregar, sentindo os pés molhados e uma mistura de felicidade com hesitação.

O humor fica mais agressivo. O “não gosto de você” é tão forte quanto o neutro – e por isso terrível – “não me importo”.  Devagar, as incertezas dão lugar a uma chatice natural que se desenvolve dia a dia, umas vontades menos caprichosas e mais mandonas. Uma voz forte que diz “se vc não quer, eu quero’.

Isso é um registro. Porque daqui a pouco vai ser 26, 30, 50… E eu vou achar tudo isso tão bobo e tão belo. Inocentemente belo.

Que os deuses me deem a calma e sabedoria que nunca alcancei. Cheguei aos 25.

2 Responses to “Aos 25”

  1. ; says:

    “- Depois veio a primavera – continuou Larry. – Chegou tarde, naquela região lúgubre e plana, onde ainda chovia e fazia frio. Mas às vezes, com um dia bonito, era sacrifício a gente entranhar-se pela terra, num elevador gigante, repleto de mineiros metidos em sujos macacões. Era primavera, sim, mas chegava timidamente àquela paisagem sombria, como que incerta da recepção que lhe fariam. Lembrava uma flor, narciso ou lírio, que desabrochasse no vaso de uma janela de cortiço, deixando a gente a imaginar por que razão estaria ali.”

    (The Razor’s Edge; W. Somerset Maugham)

  2. Edu says:

    Confesso que fiquei extasiado com suas palavras suspensa no ar por alguns segundos. Denso,tenso!

    Agente demorar a se dar conta do quão bem se faz nos encontramos nas palavras familiar de estranhos… E, no momento em que digito estas linhas, continuo com o ar deslocado perceptível apenas a pessoas com 25. Nem mais, nem menos…

    Parabéns pela sensibilidade do texto.

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