Esse é só mais um dia daqueles horríveis nos quais parece que há algo me destruindo por dentro, me corroendo. São cicatrizes antigas que se fecha com um pó antiséptico e então se acha que tudo ficou bem, até que um belo dia alguém chega e puxa o cascão de uma vez. E era uma ferida mal cicatrizada, esquecida, em qualquer lugar do corpo onde a roupa não incomoda, que só doi quando tocada por mãos inábeis. É uma dor horrível, digo de antemão.
E aí eu engulo o choro, porque disse que cicatrizes antigas só me farão chorar uma vez. Talvez meus olhos se tornem um pouco avermelhados, mas, definitivamente, dessa vez lágrimas não cairão. Sofro por dentro, me desintegro, sangro, sangro muito, sinto dores horríveis, convulsões, peço um hospital para a alma, grito por ajuda, grito muito alto mas, assim como nos sonhos, ninguém escuta.
Começo a acreditar que sou uma farsa. Me mimetizei tanto no ambiente que já não sou mais eu, sou ele. Olho em volta procurando catar meus cacos jogado pelo chão, resquícios da últimas vez que me quebrei em mil pedaços. É com muita dificuldade que consigo reconhecer o que pertence a mim. Começo a discutir, gritar alto, pergunto onde estou, o que fizeram comigo, e me torno uma filósofa de latrina com as velhas questão de identidade.
Olho o fundo da piscina. Fazia tempos que não pensava em me jogar. Aqui fora parece tão confortável, tão quente, mas tão caótico, enquanto lá no fundo deve estar frio. Lembro então que o difícil é ter coragem pra saltar e uma vez ali, a tendência é se acostumar com a nova situação.
Dúvidas me rondam. È hora, então?
O que resta? O que é meu que devo levar de volta pro fundo? Fundo do poço, do mar ou da gaveta? Vejo rostos conhecidos de pessoas que nunca admirei e que de repente começam a ficar interessantes, a ter qualidades que nunca admirei por achar comuns, mas que agora sinto falta. Isso é normal?
Começo a perder as forças. Talvez nem me jogue, somente desmaie e espere se alguém vai me segurar – tenho certeza que não -, ou se irei cair e molhar os cabelos mais uma vez.