April 1st, 2009

“Um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - a meu mistério”

(LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 2998.)

Anna… Simplesmente Anna.

March 31st, 2009

Há algum tempo um amigo pediu um texto de aniversário. Foi um desafio. Por vezes, pensei em comprar qualquer outra coisa, mas jamais dar um texto, uma coisa tão pessoal, um pedaço de mim… O resultado segue abaixo. O título foi dado pelo meu amigo.

Nada foi pensado, mas, como nossas conversas sempre enveredam sobre a arte de escrever, acabou sendo sobre “O processo”. Aliás, ele foi a primeira pessoa que um dia me chamou de escritora.

………

Maldito seja! Podendo pedir tanta coisa e me pede logo um texto?! Pede um livro, um bolo, um cartão, um vale-presente, qualquer coisa, menos um texto…

A noite é fria. Aqueço o leite: é preciso fingir que se faz algo na hora que as frases sumirem, nem que seja olhar para o horizonte após um gole. Acendo o incenso, aponto o toco de lápis 2B, separo as folhas e me sento no chão.

Ofereço-me em sacrifício e inicio o ritual. O lápis parece ligado misteriosamente ao meu coração. As palavras são sentimentos, cores, sabores e cheiros. Inicio minha viagem por um mundo de sensações. Não sei mais o que é tempo: só há pena e papel.

Transe.

Estou vestida, mas é como se estivesse nua. Digo que minto e de repente me vejo sendo verdadeira. Faço um auto-retrato através de palavras. Fidedigno. Um legítimo registro de nu artístico.

Quase não me mexo, mas me sinto ofegante, apesar de determinada. Só há transpiração. Sinto o final chegando e um êxtase me consome. Cheguei ao ápice: a arrebatação. A dor se transformou em prazer.

Não olho para trás. Não há borracha, não há correção. O que fica é cada vez mais puro e verdadeiro o: eu. Finalmente abro os olhos, saio do torpor e sinto uma alegria seguida de cansaço.

O leite está frio. O incenso já foi consumido e a noite continua fria. Lembro que talvez tenha outros afazeres e me assusto com a hora.

Cheguei ao ponto final.

February 21st, 2009

“There’s no place like home” (Dorothy. Wizard of Oz, 1939)

Não tenho sapatinhos vermelhos msa voltei pra casa. Amêndoas e castanhas nas mãos, saudade na mente. Um pouco lá, um pouco cá. O descuido de sempre: deixei pedaços meus pelo mundo. Impossível pegá-los de volta e mais impossível é parar de pensar neles.

Molho-lavagem-longa

February 21st, 2009

Entrei num turbilhão que durou quatro meses . Começou devagar, com decisões estranhas que ora me pareciam as mais corretas do mundo, e ora me pareciam um grande erro. A todo momento a velocidade ia aumentando e me deixei levar, ficar tonta, permitir viver tudo. De repente achei que tinha acabado. Poderia sair de dentro da máquina. Já havia sido vingada, limpa, lavada, e então tudo me parecia perfeita no seu lugar, pronto para ser estendido.

Um engano. Era só o início três péssimos meses me esperariam. Alguém havia pedido a opção lavagem-molho-longa. Malditos sejam! Foi então que algo começou a acontecer e comecei a encolher. Não estava preparada para passar por tudo, mas ninguém leu minhas orientações e ali continuei. De repente tinha 17 anos de novo. Menina, pequena…

Tive medo, frio, e não havia onde me agarrar. Percebi que à medida que tudo começava a rodar novamente, o nível de água aumentava: eram lágrimas. Talvez tenha desmaiado, entrado em estado de torpor, não sei. Muito tempo se passou e foi tudo tão rápido… De repente eu estava lá, e no outro segundo tinha que ir embora. As coisas se tornaram confusas, talvez oníricas. Uma semana parecia um ano, um ‘sim’, soava como ‘não’, quem não se falava de repente se conhecia há muito tempo, e, aqueles que um dia se conheceram, se estranharam. Escrevia com uma caneta de uma cor e, de repente, já tinha quatros cores à minha disposição.

Sinto a velocidade decair. Acho que vão abrir a porta e ficarei livre. Tenho medo do sol.

December 5th, 2008

Corro, corro e corro.

Na metade do temp, somente tendo deixar as coisas pra trás, superar de um jeito fácil e esquecendo que na verdade são círculos. Quanto mais corro, mais volto ao início. Na outra metade do tempo  procuro a linha de chegada e, quando me aproximo dela, percebo que na verdade quero correr mais, muito mais, e vou por outro caminho sem pensar no que vai acontecer depois.

Fecho-me em mim em segredos públicos e notícias secretas. Meu. Minha. Minha Pasárgada, meu pedacinho de universo no qual sinto cheiro de jasmim todos os dias e brinco de Jogo do Contente.

Então canso de correr, abro os olhos, e sinto um cheiro meu, só meu, no travesseiro. Uma nota agradável, uma misturada de shampoo com creme hidratante, e me perco em mim pedindo mais 5 min ao despertador. Apenas levanto e ando. Os passos sincopados e a música ao fundo me fazem crer que é um filme, é um sonho, é qualquer coisa da qual tento fugir e se repete todos os dias.

Me gusta cuando callas

October 15th, 2008

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

(NERUDA, Pablo)

Nada poderia se encaixar melhor agora.

October 13th, 2008

“Pronto! Aconteceu - o momento - o geste! - E embora eu estivesse preparado, aquilo me pegou, perdi meu eixo, fiquei simplesmente pasmo. E a sensação física era tão curiosa, tão particular. Era como se tudo aquilo que me constituía, com exceção de minha cabeça e de meus braços, tudo de mim que estava sob a mesa, tivesse simplesmente se dissolvido, derretido, virado água. Sobrou apenas minha cabeça, e dois braços, que pressionavam a mesa. Ah, a agonia desse momento! como posso descrevê-la? Não pensei em nada. Não consegui emitir um som sequer. Por um brrve momento deixei de existir. Eu era Agonia. Agonia. Agonia.”
(MANSFIELD, Katherine. Contos. São Paulo: Cosac & Naif, 2005)

Tive uma idéia

September 16th, 2008

Não uma idéia qualquer, mas a idéia de um projeto, dessas com início, meioe fim, que vão ganhando uma forma mais clara a cada segundo.

E como dói. Ninguém sabe como é, mas é como ter um filho. Nesse exato momento, acabei de descobrir que estou grávida. Entrei em desespero, preciso contar para alguém, preciso pensar se é possível deixar crescer, criar asas, ganhar o mundo, sair de mim e ter suas próprias pernas.

Estou agoniada e ando de um lado a outro da casa. Ainda não é hora de contar a ninguém. É preciso ter certeza. Dentro de mim, sei que vou levar isso adiante, ficar orgulhosa, mostrar pra todo mundo, mas também sei que vai ser difícil, talvez chore, me arrependa e mande tudo à merda e me ache uma idiota no meio do caminho.

Mas agora não importa. Apenas decidi que vou levar essa gestação adiante, a minha idéia, tão pequenina, tão bonita, com um conceito tão lindo, enquanto imagino uma vida longa, em blogs, portifólios, papéis especiais… E, ao mesmo tempo, tão minha.

Sei que não é fácil criar uma criança assim, ora. Por isso já liguei para algumas pessoas. Se eu sou a mãe, preciso de avôs, avós, tios, tias, amigos, e mais todo mundo que já tenha experiência com crianças e/ou que estejam dispostas a me ajudar. Só decidi que babá ele não vai ter. Se a idéia é minha, vou criar, verificar o CMYK, a porcentagem de preto, a resolução, o melhor corte de imagem, vetorizar, curvar, verificar a fonte mais adequada… Ainda não pensei nisso alias, será que vai nascer com serifa ou sem serifa? Vou esperar começar a se formar pra decidir depois, quando olhar pra carinha dele, quer dizer, dela.

E o caminho é longo, viu? Já começo a sentir as mudanças no corpo. Não tenho mais fome. Estou obcecada. Só penso na minha pequenina criação. Já nem tenho sono. Desde que ela apareceu em mim, é como se tivesse tomado uma dose abusiva de cafeína. Procuro chás e outras drogas pra me deixar menos ansiosa mas não funcionam. Sinto vontade de sair correndo, rindo, gritar pra todo mundo que sou a mão de mais uma idéia muito bem resolvida.

E que raro é isso! Tantas vezes temos projetinhos que nem gostaríamos de ter feito, umas coisinhas que às vezes nem deixamos viver muito tempo, seja pela falta de dinheiro pra mantê-las, seja pela forma tão sem amor como foram geradas. E isso sem contar as doações! Já doei muitas idéias pro meu estagiário e, outras vezes, mesmo morrendo de ciúme, deixei ele cuidando  quando o que mais queria era ficar com elas.

E se for uma idéia mal resolvida? Dessas que demoram muito tempo para serem paridas? Dá pra assistir todas as novelas da Globo e a idéia não sai. A gente sofre, grita, chora, faz mil apresentações e parece que a bichinha nunca ganha a forma que tem que ter. Esse é o medo de qualquer dono de idéias. E tem aquelas que, se não são mal resolvidas, quando começam a ganhar a forma final sofrem mutação. Que triste! Mexe daqui, mexe daqui, e não dá pra entender como na imaginação o formatinho dela é tão perfeito mas “no papel” é tão diferente. E haja operação plástica de correção!

Como se sofre! Falta dinheiro, falta sono, falta tempo, falta tanta coisa, mas depois que nascem, do jeitinho que se planejou, que lindas que são. O problema é que nem se pode admirá-las por muito tempo pois logo ganham o mundo e deixam de dar notícias. Depois só vamos reencontrar as idéias dentro de pastas de backups, de portifolios ou de conversas saudosas. Diante disso, só podemos fazer algum comentário educado dizendo que foi um projeto que nos marcou e parir uma nova idéia melhor que a anterior.

Um momento de calma

September 9th, 2008

Organizando os pensamentos, respirando fundo e indo embora.

Buscando o fundo do mar em busca dos tesouros. E pode ser que um dia não haja mais nada a ser encontrado, mas então procurarei outro mar de águas mais profundas. Olho o horizonte e peço forças. Estou nova, reenergizada, plácida e com uma calma que nunca tive antes.

Não me reconheço por cinco minutos e então sinto o cheiro de jasmim e tenho certeza de que as coisas somente estão bem. Fecho as portas atrás de mim. Estou descalça. É madrugada e todos dormem. Meus passos não fazem barulho no corredor e saio no frio da madrugada em busca do meu caminho. Estou sozinha e é assim que quero ficar.

Sinto enjôo, cansaço, vomito minha alma em qualquer canto, e quando tentam tocar minha mão saio correndo. Durmo por dois dias e quando acordo procuro meus óculos. Faz sol e me sinto feliz. Voltei às origens.

Estou sozinha.

É assim que quero ficar.

Patty Diphusa e os tempos modernos

September 7th, 2008

“Tudo é festa, sexo, alegria e inconsciência. Nada disso. Os jogos deixam de ser jogos quando se tornam manifestações culturais. Antes, uma festa era um lugar onde se roubavam as jóias ou o namorado dos outros, e isso criava uma tensão, uma história digna de ser vivida. Agora, uma festa é um mero platô onde suas antigas amigas convertidas em múmias passam a noite posando para fotógrafos amadores, que depois escolhem as piores fotos e publicam. A quem querem enganar? Nas festas ultimamente a única coisa que acontece são as fotos e para mim isso não basta, sinto muito. OU seja, fujo de festas. E dujo das pessoas que falam de festas, que desenham festas em suas história em quadrinhos ou que tiram fotos nas festas e as publicam como se isso importasse a alguém.
Prefiro a mesmice, a depressão, as reflexão, a abstinência, o tédio, o niilismo, a discrição, o não ter nada para dizer, a inatividade, os bons modos, a antipatia, o country, o horário fixo, a precaução, a melancolia, as visitas familiares, o comunismo soviético, a sensatez, a inibição, as raízes, a tradição, os cantores-compositores, etc.
É insuportável essa necessidade que todo mundo tem de mostrar que é o máximo.
A fama me converteu em uma pessoa triste e melancólica e não estou disposta a tomar drogas para superar este estado.
Não tenho nada a dizer, e não quero dizer nada. Não tem sentido continuar escrevendo. Esta página, a partir desse momento, estará vazia. Que outros a preencham.”

(ALMODÓVAR, Pedro. Patty Diphusa)